Recentemente, um amigo escreveu sobre a importância de compreendermos as licenças dos softwares que usamos e sobre o quanto uma empresa está sendo omissa ao adotar softwares piratas, ignorando as possibilidades de legalização e/ou de uso de softwares alternativos.
Eu escrevo, agora, sobre outro fator que assombra as organizações que se dizem 100% legalizadas: a cultura do “use o de casa, use o pirata”.
Quantas músicas baixadas da internet existem na maioria dos computadores do mundo? Eu seria hipócrita em dizer que a maioria destas musicas foram adquiridas de forma legal. Mesmo levantando a bandeira de que existe um grupo de usuários cujo sistema operacional, e seus programas, são livres, com licenças compatíveis com o uso que se faz deles.
Estas pequenas discrepâncias que acometem o dia a dia dos nossos computadores domésticos acabam criando uma cultura que vai além das mp3, e se espalha pelo hábito de que comprar um computador hoje é se importar com tudo, menos com o software que virá com ele. Compramos computadores pelo custo do hardware e o restante nada mais é que uma cadeia de acontecimentos rumo à pirataria plena.
E não tente escapar deste assunto, digamos, incômodo. O técnico de informática, o amigo virtual e os fóruns vão logo lhe mostrar que existe um grande sistema operacional de janelas, famoso por ser prático e ser o mais usado no mundo e que, com alguns segundos ou minutos de download e uma chave e métodos ilegais, será plenamente instalado em seu computador.
Do sistema operacional pulamos rapidamente para inúmeros softwares tão ilegais quanto o primeiro. No final, tanto o seu amigo que edita bons vídeos, quanto o colega que faz projetos de engenharia no computador de casa para a faculdade, fazem uso de softwares ilegais.
Quando estes profissionais são contratados ou resolvem participar de um empreendimento, acabam levando parte desta cultura para a empresa ou organização. E, acreditem, muitas organizações pagam caro por certos softwares, mas continuam ignorando que o sistema operacional, o antivírus e o editor de texto, tão usados no mundo todo, são piratas, são produtos ilegais que estão manchando a imagem de uma empresa “legalizada”.
Eu chamo isto de ilusão do (i)Legalizado.
As bandeiras de defesa deste uso ilegal são muitas, tais como o custo elevado cobrado pelas empresas para o software em questão, ou que não se consegue comprar com boa barganha. No final, entre uma desculpa e outra a comodidade do software ilegal acaba ganhando espaço.
Não vou discutir o custo de um produto. Existem muitos determinantes para que um preço seja gerado, que vão muito além das funcionalidades e incluem variáveis tão díspares quanto logística e design.
O que questiono é: assim como não temos nenhum cuidado ao perceber que estamos jogando lixo na rua e isto vai colaborar para entupimentos, enchentes e outros problemas, o uso de softwares de forma ilegal também colabora para que o preço seja ainda maior por aqui (já que será vendido um número mínimo de licenças) e desenvolve uma competitividade injusta – afinal de contas, como competir com um software pirata que não paga imposto e tem custo quase zero?
Levando adiante as questões da cultura que se formou em torno deste sistema, quando passaremos a nos importar com o custo real de um investimento em informatização?
Muitos softwares ilegais possuem restrições de atualizações de segurança, enquanto outros, supostamente grátis, possuem limitações de determinados recursos. Ambos fatores vão provocar em redes de médio ou grande porte sérios problemas técnicos.
E falando em problemas técnicos, em uma suposta fiscalização, de quem é a culpa pelo uso de softwares (i)legais? Do Supervisor ou do técnico? A direção irá assumir que apelou para o uso deste tipo de software, ou irá dizer que foi “enganada” pelo técnico?
Não se engane. Software pirata é o mesmo que comprar filmes piratas e outros produtos ilegais. Você e sua empresa estão investindo no atraso tecnológico, no risco técnico e na insegurança. É hora de despertamos para buscar alternativas viáveis.
Elas existem?
Sim. Primeiro, se o seu negocio exige grandes recursos de TI, pense melhor ao tentar empreender com poucos recursos iniciais. Consulte bem o mercado das soluções disponíveis e veja onde se pode economizar. Se um único software faz o que você precisa e é determinante para o negócio, invista nele, pois haverá menos dores de cabeça e mais recursos disponíveis, como suporte e atualizações.
Em segundo lugar, se a necesidade da sua empresa não ultrapassa os recursos de informática mais básicos, pense em soluções mais simples, que em sua maioria estão em concorrentes mais baratos o, em softwares livres distribuídos de forma gratuita, tais como o Gnu/Linux, Gimp, BrOffice e etc. Você poderá se surpreender, pois com um pouco de treinamento muitos destes softwares se mostrarão equivalentes ou superiores aos seus companheiros pagos.
Em terceiro e último lugar, coloque no papel e na planilha os custos e o retorno esperado deles. Procure levantar características técnicas amplas, envolvendo não apenas a funcionalidade esperada, mas as vantagens de instalação, manutenção, segurança e aderência, bem como as necessidades de quem precisa operar os softwares.
Mas cuidado! Nem todo Software Livre é grátis. Nem todo software grátis é software livre. Nem todo software grátis pode ser usado de forma gratuita dentro de uma empresa ou organização. E lembre-se que adquirir um software é muito mais do que ignorar as palavras iniciais na hora da instalação.
Ao procurar por conselhos, veja se este empresário ou organização possui uma estrutura semelhante de negócios. Procure por mais de um “case” e não deixe de verificar o que o governo federal tem conseguido com o software livre; instituições de grande porte como o Banco do Brasil e Caixa Econômica possuem um know-how notável com soluções abertas.
Existem combinações diversas para que sua empresa, casa ou organização estejam legalizadas e produzindo com qualidade. No atual contexto do caminho do desenvolvimento traçado pelo governo, é hora de mudarmos muitas culturas. A visão “holística” da empresa diante da sociedade e do ecossistema pede por responsabilidade e sustentabilidade.

